Eletrólitos

Eletrólitos na veterinária: a importância do cálcio

Eletrólitos na veterinária: a importância do cálcio

O que é cálcio?

Trata-se do principal ânion extracelular e pode ser encontrado no sangue na forma livre ou ligado a proteínas plasmáticas (principalmente a albumina). Está amplamente distribuído no organismo e tem fundamental importância em diversas funções do corpo do animal.

O cálcio participa da contração muscular, coagulação sanguínea, diversas atividades enzimáticas, excitabilidade neuronal, secreção hormonal, homeostase sanguínea, além de ser o principal componente do tecido ósseo.

Quase sua totalidade (por volta de 99%) encontra-se na matriz óssea inorgânica. O remanescente está na membrana plasmática e retículo endoplasmático (0,9%) e no fluido celular (apenas 0,1%).

Aproximadamente 50% do cálcio extracelular está na forma biologicamente ativa, denominada cálcio iônico ou ionizado (Ca²⁺). Perto de 35% do seu total está ligado a proteínas plasmáticas, principalmente a albumina. O restante, cerca de 10 a 15%, está quelado com ânions, como fosfato, bicarbonato, lactato e citrato.

Como cálcio quelado e o ligado a proteínas são biologicamente inativos, para dosagem acurada faz-se necessário considerar o cálcio iônico. É possível calcular seu resultado a partir do total de cálcio no organismo ao proporcionarmos com o resultado da albumina, porém esta modalidade é passível de erro e não é a mais recomendada, especialmente se os valores analisados estiverem diferentes dos normais encontrados no organismo do animal.

O padrão ouro para este tipo de dosagem está no teste realizado com cálcio iônico, disponibilizado a baixo custo no EC 90, analisador de eletrólitos utilizado pela empresa.

Metabolismo do cálcio

A regulação é feita pelo sistema endócrino e envolve a vitamina D, paratormônio e calcitonina. O paratormônio é um hormônio proteico produzido pelas glândulas paratireoides e tem a função primordial de regular a quantidade de cálcio livre no sangue, principalmente quando o organismo percebe a diminuição deste íon.

As células da paratireoide detectam a diminuição do cálcio no sangue e liberam o paratormônio que, por sua vez, aumenta a absorção intestinal e renal além de mobilizar rapidamente o cálcio e fósforo dos ossos.

Sua excreção é concomitante com a do sódio, originalmente. Os fatores que influenciam e regulam o transporte do sódio no túbulo proximal nos rins também regulam o cálcio.

No entanto, o paratormônio aumenta muito a reabsorção do cálcio sem afetar o sódio. Além disso, ele também diminui a reabsorção renal de fósforo elevando-o na corrente sanguínea e estimula a conversão da vitamina D para a forma ativa, calcitriol. Ela, por sua vez, aumenta a absorção intestinal do cálcio.

A secreção de paratormônio por longos períodos acaba promovendo uma maior reabsorção óssea por inibir a função osteoblástica e por estimular a função osteoclástica. A vitamina D e o paratormônio são importantes reguladores do crescimento e remodelamento ósseo.

A calcitonina é produzida pelas células parafoliculares da tireoide (as células C), e tem a função de reduzir a concentração plasmática do cálcio. A calcitonina aumenta a captação celular do íon, assim como sua excreção renal e estimula a formação óssea. No entanto seus efeitos no metabolismo dos ossos são muito menores do que os efeitos do paratormônio e da vitamina D.

Os cães e gatos não produzem a vitamina D através dos raios UVB como seres humanos. Por esse motivo é necessário que toda a vitamina D seja proveniente da alimentação.

O colecalciferol, ingerido através da dieta, é absorvido pelo intestino e levado até o fígado ligado a VDBP (proteína de ligação da vitamina D). No fígado, o colecalciferol sofre hidroxilação e transforma-se em calcidiol. Por sua vez, o calcidiol é transportado para os rins, ligado a transcalciferina (alfa globulina produzida pelo fígado). Somente então, é transformado em calcitriol, a forma ativa da vitamina D.

O rim regula a produção de vitamina D através dos níveis plasmáticos de cálcio, fósforo e paratormônio. A forma ativa da vitamina D, o calcitriol, estimula o intestino delgado a sintetizar a proteína ligadora de cálcio, que promove o seu transporte intracelular.

Resultado da descompensação de cálcio no organismo

Quando o consumo e/ou a perda de cálcio não estão equilibrados, a concentração sanguínea se altera e teremos:

  • Concentrações baixas → hipocalcemia
  • Concentrações altas → hipercalcemia

Hipocalcemia

O cálcio está envolvido em inúmeras funções orgânicas, logo a hipocalcemia gera diversos sinais clínicos em cães e gatos.

Ela pode estar associada à hipoalbuminemia, uma vez que o cálcio se liga principalmente a esta proteína. Por isso, nos casos de hipocalcemia deve-se sempre checar as funções hepáticas e renais.

A baixa de cálcio no sangue também pode ser causada por má absorção intestinal, insuficiência renal (pela menor produção e ativação da vitamina D), doenças hepáticas, em casos de eclampsia e hipoparatireoidismo.

Na pancreatite aguda também encontra-se hipocalcemia e deve-se associar a dosagem de lipase, amilase e hemograma (leucocitose com neutrofilia) para o fechamento do diagnóstico.

Na pancreatite aguda tem-se um aumento dos ácidos graxos, pela ação da lipase. Estes ácidos graxos combinam-se com o cálcio e o torna indisponível no sangue.

Os gatos estão mais sujeitos a hipocalcemia nos casos de hipertireoidismo, enemas e obstrução uretral (associado a hipercalemia e hipernatremia).

Outros sinais clínicos resultantes da hipocalcemia são irritabilidade, taquipneia, hipertermia, distúrbios de coagulação, tremores musculares, arritmias cardíacas, irritabilidade, raquitismo, osteomalácia, tetania e convulsões (em casos mais graves).

Hipercalcemia

Esta descompensação é mais rara e pode ser causada pela intoxicação por vitamina D, dietas ricas em cálcio, neoplasias, doenças granulomatosas, insuficiência renal aguda ou crônica, hiperparatireoidismo primário e hiperparatireoidismo secundário renal (somente nos processos iniciais).

Com a evolução do hiperparatireoidismo secundário renal, o animal apresentará um aumento do fósforo sérico e uma hipocalcemia com possível fragilidade óssea.

Para a dosagem de cálcio, é recomendável que o animal esteja em jejum para a coleta de sua amostra já que uma lipemia, por exemplo, pode levar a um falso resultado de hipercalcemia.

Alguns dos sinais clínicos mais típicos do excesso de cálcio no organismo são: vômitos, fraqueza muscular, bradicardia e depressão do sistema nervoso central, poliúria e polidipsia.

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